EXERCÍCIOS DA VOZ

Antônio Lázaro de Almeida Prado

 

 

ALVÍSSARAS À POESIA DE ROSAE NOVICHENKO

 

Desta coluna do Jornal de Assis já me ocupei da Arte Multimídia de Rosae Novichenko, destacando em Interlúdio paulistano (1), em julho de 2007, as potencialidades múltiplas (à Leonardo) de Rosae.

 

Agora quero chamar a atenção para o viés poético dessa artista, muito consciente de seu mister. E da alternativa do título pronto para editar-se: Destinos destilados ou Destino-cor-de-poesia, prefiro a segunda parte, até pelo que permite salientar os efeitos, quase direi visuais, das poesias dessa artista da palavra, que, contemporaneamente é compositora nas áreas da Música e da Pintura.

 

Rosae atinge e constrói, no seu fazer poético, uma combinatória, apreciável, daqueles efeitos denominados por Ezra Pound de logopéia, melopéia e fanopéia, vale dizer, efeitos nocionais, musicais e de sugestão de visualidade, até porque, pelas potencialidades dos signos, das figuras, das metáforas e dos sons as palavras poéticas provocam na imaginação dos leitores e/ou auditores representações mentais muito vivas, que as palavras como um todo sonoro-significativo podem apenas sugerir, na sua congenial linearidade ondulatória.

 

E Rosae, continuamente, com seu domínio dos efeitos pictóricos, plásticos e musicais, parece conferir cores, tons, e espessura aos seus versos e poemas. 

Foi o que notei e até insinuei ao preferir para título dessa sua preciosa reunião de poemas Destino-cor-de-poesia.

 

É o que, aliás, a palavra provoca no fazer poético de Rosae, como se percebe em "Sina de Transformação", em que aceito o desafio da palavra "(...) devo acatá-la e em acalanto

aquecê-la, adotá-la,

assumi-la, consumí-la

até que inteira

transborde em escrita

e mais que escrita

seja vista, ouvida, falada:

-nova vida(...)"

 

Daí, também, poemas que assumem estruturas visuais, ao longo da coletânea de poemas. Daí, também, serem multicoloridos os poemas de Rosae, ora com tons vermelhos, ora com efeitos de branco e preto, ora nos contrastes de luz e sombra, que permeiam sua obra poética. E o "Mundo Menino", por exemplo, assume metamorfoses colorísticas, que aliam autora e personagem, numa intercomunição de efeitos plástico-visuais de forte expressividade.unição de efeitos plástico-visuais de forte expressividade.

 

"São Paulo/Noturna", por exemplo, é como que uma cidade ideal, visualmente mutante, como se vista ao sabor das mutações metamórficas do observador amoroso. 

E, em boa verdade, a vocação poética de Rosae chega a levá-la a insinuar que "É perverso quem é avesso ao verso", aliás, até porque o verso (para Rosae) é adverso ao descaso, à desavença, ao desconforto, à desconversa...

 

E é isso que o poeta italiano Giovanni Pascoli vislumbrava no "impoetico": o desalinho, a desarmonia, e, logicamente, a tristeza inerente à perversão...

Para a filósofa Arendt o mal é tedioso. Para Pascoli, para Rosae e para todo poeta autêntico, vale dizer para todo artista, o mal é carência, desalinho e desarmonia...

 

Ademais dessas fortes insinuações de visualidade, a poesia é para Rosae (e creio que para todos nós poetas) uma das várias possibilidades de acréscimo de ser, ou, se quiserem, com Dante, de "transumanar"...

 

Daí que Destino cor-de-poesia é, também, uma espécie de exegese poética do Universo (que aliás, notaram? é unidade e é expressão po-ética, vale dizer, Uni+verso...

 

Que posso dizer mais da ascese poética de Rosae Novichenko? Só posso pedir a ela, que transforme sempre sua polipersonalidade artística em frutos de arte, em germes de articulação e de solidariedade, como eu próprio costumo dizer "se arte, reparte", isto é, que os dons que nos são conferidos devem frutificar, como bens terciários ou de expansão do ser, em benefício de todos os humanos.

O que é forte desafio. Que, certamente Rosae assume com polivalência à Da Vinci...

 

Por isso é tempo de editar seus poemas... .

 

 

São Paulo, 27 de julho de 2008

 

ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO

Jornalista, Poeta, Ensaísta, Tradutor

e Professor Doutor da USP, fundador da UNESP - Assis.