Aqui, alguns poemas:

 

DIGNIDADE

Rosae Novichenko

 

Se eu fosse pássaro engaiolado e se me abrissem a porta

Se me alertassem que por eu ter vivido a vida toda preso:

“Se voasse poderia morrer”...

 

Eu não hesitaria...

Iria de encontro à liberdade da minha morte...

 

E me entregaria, no tempo mínimo que me restasse

viver toda essa minha eternidade: a plenitude de minhas asas soltas

dignidade de ser eu - um ser livreser eu mesmo pássaro

Unificado completamente na plenitude do ar... 

 


 

 

SIRENES DA AVENIDA

Rosae Novichenko

 

Na pequena praça

Plantada na avenida

Grilos gritam e anunciam sua raça

Cigarras sireneam seu amor

 

Ignoram o trânsito dos desafetos

Culpas e dívidas dos que passam perto

 

A terra é infinita

Para esses invisíveis insetos

Que não fazem conta

Do bicho máquina motor

 Que esbraveja em sua volta

Por ser máquina, em seu ruído

silêncio do desamor

 


 

 

SINA DA TRANSFORMAÇÃO

Rosae Novichenko

 

Assim eu me assusto

palavra vem pronta

deixando-me tonta

com sua força e busto

me encara e afronta

desafia e me atonta

 

Devo acatá-la e em acalanto

aquecê-laadotá-la

assumi-laconsumi-la

até que inteira transborde em escrita

mais que escrita

seja vista, ouvidafalada:

- nova vida

 

Assim é a sina poética

histórica

perpétua

profética

uma palavra...

 

Basta uma palavra...

para que meu rumo mude

para que o mundo

deixe de ser rude


 

DANÇA DO MEDO

(para os quase-artistas)

Rosae Novichenko

 

Meu medo tece roteiro

De lanças e pontas

E facas e pontes

De mãos sem dedos

 

Meu medo é cego

Meu medo é surdo

Meu medo é escuro

Meu medo é ego

... meu medo eterno...

 

Meu medo se fere

Com sombra de espada

Meu medo se embala

Com sopro de nada

 

Ah! Meu medo é tudo

Meu medo é um mundo
Ferido à bala

 

Meu medo é você,
Espelho e fada
Quando vejo
Os seus/meus olhos
Mergulhados n’água

 

Quando vivo e não sonho
Quando não mais ouço
A sombra da fala
Do “eu” sussurrando
Na cela, desgraça:

 

Meu grito contido

De poeta mudo!

 


 

 

PERVERSÃO

Rosae Novichenko

 

É perverso quem é avesso ao verso

 

Quem tem voz e não canta

Quem tem pés e não dança

Quem come e não se alimenta

Quem pesa sem medida, sem balança

Quem esquece seu eu criança

 

É perverso quem é avesso ao verso

 

Quem não vê o óbvio:

Que da vida a concreta medida

- é somente o óbito.

 

É perverso quem é avesso ao verso

 

Quem engole vômito do seu veneno

E não destila em hálito sereno

Quem se consome no consumo

Quem se converte em vazio

Sem essência, sem perfume.

 

É perverso quem é avesso ao verso

 

Quem trabalha em descaso
E sem descanso. E em descaso,
Desavença, desconforto
Desconversa o próprio verso:
Sem poesia não há conforto
Sem poesia não há esperança.   

 


 

MUNDO MENINO

(Rosae Novichenko -publicado em julho/1980

 “Carretão” - Prefeitura Municipal de Lages / SC)

 

Um menino cor-de-mundo

corre mundo

procurando a si e a mim

corre a vida e corre sangue

luta bravo e faz a guerra

guerra fria e guerra morta

Liberdade é o que quer

 

Este menino cor-de-luta

é tão velho quanto o mundo

é tão mundo quanto a vida

que traz em si desde o sol

que nasce toda manhã

 

Esse menino cor-de-sangue

é poesia que dilui ossos

explode crânios aborta filhos

violenta virgens assalta bancos

pela fome de existir

O menino cor-de-mata

respira verde se embriaga

em pureza em certeza

de soldado-prostituta-marinheiro

e ladrão, bêbado caduco

é o que é - e não sabe mentir?

 

Este menino cor-de-mar

traz a mim o que de si

se faz vida

quando fita as águas

suga os ventos transforma-se

em sol - um filho-pai

 

Ah! Este menino meu irmão

amante do mundo

menino cor-de-tudo

Que sou eu

 


 

DIMENSÃO PÚRPURA

Rosae Novichenko

 

Bebo a cor geométrica

Do lustre luz refletida

No púrpura vinho-alma

 

Calma

É o que preciso

Para decifrar

O código das cartas

Que me encantam

Trazem em mim-no-mundo

Espanto pelo seu poder

 

Geometria do nada

Contida na taça do meu querer

 

Embriaguez do saber

De cor

Da cor

Do sabor

Do morrer

 

Tarô, da cor, de cor

Do encanto que é meu

Que faço ao destino

O que traço na taça

Linhas e marcas

 

No calado cálice

Beijo

Uma vez mais

Desse vinho...

... determino

Embriagada na cor

Meu caminho

 


 

 

NOITE PREMATURA

Rosae Novichenko

 

A noite chega mais cedo hoje

... dentro de mim...

Preciso dormir

Esquecer que estive na terra

Voar pra outras esferas

Resgatar todas as forças

Pintar um novo amanhã

Ter forças para (vi)ver - (vir e ver)

O mundo de novo

Como novo

Com todas as faces que tem. 

"Cada dia é um milagre" 

- dizia minha avó -

E cada dia é um milagre só

Se um milagre fizermos dele também.


 

  

SONHO DO SONO

Rosae Novichenko

 

Leve a mim o véu de vento....

(puro contentamento)

De ares amplos, sons encantos, flutuando leve...

Leve a mim, em ondas de sopro, de flautas no céu...

Leve a mim, sonho do sono, pra dormir solta nas asas

E nos braços seus


 

SE MEU INVERNO FOSSE VERMELHO

Rosae Novichenko

 

Se meu inverno fosse vermelho...

Vermelho quente, vermelho febre-doce...

Meu inverno seria só rubro, santo,

Imenso, insano e tenso...

Meu inverno seria sono que cria,

Encarnaria o sangue de vida que congela,

E em silêncio germina,

Dando carne, dando forma ao sonho-vida...

Ciclo de ouro e sol, quando tudo é branco-cinza...

 


 

 

SINAIS DE TRÂNSITO

Rosae Novichenko

 

Ficar atento com todos os milhões

De olhos da sua pele

Milhões de ouvidos de seus ossos

Ao mínimo sinal ou mudança dos ventos

 

São os ventos que sustentam,

Conduzem as asas do pássaro

Em seu colosso: céu aberto

E infinito tempo

 

 

 

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